Quando alguém procura um médico novo, um dos primeiros gestos é digitar o nome dele no Google e olhar as estrelinhas. Um perfil com dezenas de avaliações positivas transmite segurança antes mesmo do primeiro contato. Um perfil vazio, ou com duas ou três notas soltas, deixa a dúvida no ar. O problema é que muito profissional sabe disso e mesmo assim trava na hora de pedir avaliação, com um receio legítimo: será que estou ferindo o Código de Ética ao pedir para o paciente me avaliar? A resposta curta é que existe sim um caminho ético, e ele passa por entender uma diferença que muita gente confunde.

Por que as avaliações pesam tanto na escolha do paciente

Escolher um médico é uma decisão de confiança, e confiança se constrói com prova. Quando o paciente lê que outras pessoas foram bem atendidas, se sentiram acolhidas e voltariam, uma parte da desconfiança natural se desfaz antes da consulta. Isso é o que os estudos de comportamento chamam de prova social: tendemos a considerar mais seguro aquilo que outras pessoas já aprovaram. No caso da saúde, onde a insegurança é maior, esse efeito é ainda mais forte.

Há também o lado prático da busca. O Google costuma dar mais visibilidade a perfis do Google Meu Negócio com avaliações frequentes e recentes, porque interpreta esse movimento como sinal de um consultório ativo e relevante. Ou seja, avaliação não é só vaidade: ela influencia tanto a decisão de quem já achou você quanto a chance de novas pessoas acharem. Deixar esse ativo abandonado é abrir mão de algo que trabalha por você todos os dias, de graça.

A linha que separa o que pode do que não pode

Aqui está o ponto que resolve o medo. A Resolução CFM 2.336/2023 trata com forte restrição o uso de depoimento de paciente na publicidade do próprio médico. O que ela mira é o profissional coletar relatos, roteirizar histórias de sucesso e transformar isso em propaganda que promete resultado ou sugere superioridade sobre colegas. Isso continua vedado.

A avaliação espontânea que o paciente deixa por vontade própria no Google é outra coisa. Ela é uma manifestação livre dele, hospedada numa plataforma pública que não é o seu material de divulgação, e não fica sob o seu controle editorial. Facilitar que essa manifestação aconteça, sem induzir o conteúdo dela, é diferente de fabricar um depoimento publicitário. A régua ética, na prática, se resume a três verbos: você pode estimular e facilitar, mas não pode induzir, roteirizar nem recompensar.

Estimular uma avaliação é abrir a porta e deixar o paciente entrar se quiser. Comprar ou roteirizar uma avaliação é empurrar ele para dentro e escrever a fala no lugar dele. O primeiro é cuidado com a reputação. O segundo é risco ético.

O que nunca fazer

Antes do passo a passo do que funciona, vale fixar os limites que protegem o seu registro. Alguns comportamentos parecem inofensivos e não são.

O caminho ético que realmente funciona

Com os limites claros, sobra bastante espaço para agir. O melhor gerador de avaliações positivas continua sendo um bom atendimento, então o primeiro passo é garantir uma experiência que o paciente tenha vontade de comentar por conta própria. A partir daí, o seu papel é apenas reduzir o atrito para que quem quiser elogiar consiga fazê-lo em poucos segundos.

O gesto mais eficaz é o convite simples e neutro, feito no momento certo. Ao final de um atendimento em que o paciente demonstrou satisfação, a secretária ou o próprio médico pode dizer algo como: se a sua experiência foi boa, a sua avaliação no Google ajuda outras pessoas a nos conhecer. Repare que não há promessa, não há texto sugerido e não há troca. É um convite, não uma cobrança.

Facilite o caminho até a página de avaliação. Um QR code na recepção, um link curto enviado por mensagem depois da consulta ou um cartão discreto com o endereço do perfil eliminam a parte chata de procurar onde avaliar. Quanto menos passos, mais gente conclui. O convite pode viver também na assinatura de e-mail e no rodapé do site, sempre como um convite aberto, nunca condicionado a qualquer benefício.

Constância vale mais do que campanha. Um perfil que recebe avaliações de tempos em tempos passa uma imagem muito mais confiável do que uma enxurrada de notas no mesmo dia, que costuma parecer artificial. Incorporar o convite à rotina do consultório, de forma natural, faz o número crescer sozinho ao longo dos meses.

Responder as avaliações fecha o ciclo

Conseguir a avaliação é metade do trabalho. A outra metade é responder, porque a resposta é lida por todos os próximos visitantes do perfil. Agradecer as avaliações positivas com sobriedade, sem prometer nada, mostra cuidado. Responder as críticas com respeito, sem expor dados clínicos e sem entrar em detalhes do atendimento, mostra maturidade e profissionalismo. Muitas vezes uma crítica bem respondida convence mais do que dez elogios, porque revela como você trata quem não ficou satisfeito.

O cuidado com o sigilo aqui é inegociável. Nunca confirme publicamente que a pessoa foi sua paciente, não cite diagnóstico, procedimento ou qualquer informação da consulta na resposta. O tom deve ser sempre o de quem está disponível para resolver, convidando a pessoa a continuar a conversa por um canal privado quando for o caso.

Com vinte anos no mercado digital, o que vemos se confirmar é simples: o médico que trata a reputação como parte do cuidado, e não como um truque de marketing, colhe avaliações verdadeiras que sustentam a autoridade dele por anos. Não existe atalho ético que substitua um bom atendimento. Existe, sim, a disciplina de facilitar que a satisfação do paciente vire prova pública, dentro do que o CFM permite. Feito assim, cada avaliação é um tijolo a mais numa reputação que ninguém pode comprar nem desligar.